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12/02/2015

Tempo para um “checkup”: Pesquisadores examinam a saúde da Anta Brasileira

Tradução a partir da matéria de Heather D'Angelo (mongabay.com)


A anta-brasileira (Tapirus terrestris) tem uma má fama no Brasil, onde chamar uma pessoa de anta pode significar chamá-la de burra. No entanto, a história tem mostrado que esta espécie merece muito mais respeito.

Este ousado "fóssil vivo" sobreviveu à múltiplos eventos de extinção desde o Eoceno (era geológica), ainda que sua capacidade de sobreviver ao presente Antropoceno permaneça permaneça incerta.

No Brasil, grande parte das populações remanescentes de antas encontra-se em habitats isolados e distribuídos em quatro biomas distintos: a Amazônia, a Mata Atlântica, o Pantanal e o Cerrado. Dado que as antas se reproduzem à uma taxa extraordinariamente lenta de um filhote a cada 14 meses de gestação, na melhor das hipóteses, essas populações são naturalmente vulneráveis. Isso combinado com ameaças antrópicas como a destruição do habitat, a caça e a exposição a doenças infecciosas coloca a Anta Brasileira na lista de animais vulneráveis à extinção na Lista Vermelha da IUCN.

Felizmente, cientistas brasileiros estabeleceram a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), com a meta de proteger o futuro desta importante espécie por meio de, uma pesquisa de longo prazo voltada diretamente a programas de conservação.

Em um estudo recentemente publicado no Journal of Wildlife Diseases, resultados de 17 anos de pesquisa (1996-2012) sobre a saúde de populações de Anta Brasileira na natureza, mostraram novas evidências sobre a relação entre o perfil epidemiológico destas populações e seu ambiente. Os cientistas estudaram populações de anta de dois dos quatro biomas brasileiros onde a espécie ocorre: Pantanal e Mata Atlântica.

O abrangente estudo avaliou todas as características fisiológicas relevantes das antas, dades a investigação de lesões de pele até o exame de amostras de sangue, a fim de avaliar o perfil sanitário das populações em cada bioma e comparar as diferenças fisiológicas entre os eles.

Os pesquisadores relataram que ambas as populações Pantanal e Mata Atlântica -  eram mostraram-se igualmente saudáveis. No entanto, foram encontradas diferenças significativas nas análises sanguíneas. Embora anticorpos contra cinco vírus selecionados para o estudo tenham sido detectados em ambas as populações, alguns agentes infecciosos foram mais prevalentes nas antas do Pantanal do que nas da Mata Atlântica.
Especificamente, os animais do Pantanal demonstraram uma resposta sorológica significativamente maior para anticorpos contra o vírus da Parvovirose Suína.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que esta resposta poderia ser decorrente da presença do porco-monteiro, que convive em contato próximo
com as antas neste bioma.

Porcos-monteiros são descendentes dos porcos domésticos originalmente introduzidos na região do Pantanal, há dois séculos, e, portanto, poderiam hospedar os mesmos patógenos que afetaram os rebanhos de suínos domésticos.
"Uma das descobertas mais importantes deste estudo é como as diferenças no perfil epidemiológico das populações de antas do Pantanal e da Mata Atlântica parecem estar mais associadas a fatores ambientais do que com a espécies alvo," disse Renata Carolina Fernandes Santos, médica veterinária da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB).

As antas do Pantanal também apresentaram uma maior resposta sorológica para anticorpos contra Leptospira interrogans, bactéria causadora da Leptospirose, uma zoonose diretamente relacionada à áreas com chuvas fortes, clima quente e água parada. Os pesquisadores correlacionaram a prevalência deste patógeno às características ambientais do Pantantal, onde as cheias sazonais podem facilitar a disseminação de patógenos que tem a água como sua principal via de transmissão para completar os seus ciclos epidemiológicos.

No geral, os cientistas trabalharam com as hipóteses de que a maioria das variações fisiológicas encontradas entre as duas populações de antas poderiam ser produtos de diferenças ecológicas e ambientais observadas entre os biomas Pantanal e Mata Atlântica.

Eles recomendam que futuros estudos de saúde de antas tenham uma abordagem ecológica e holística, a fim de melhorar a nossa compreensão sobre a relação entre os seres humanos, animais selvagens, animais domésticos, patógenos e o ambiente.

Segundo Patrícia Medici, bióloga e coordenadora da INCAB, esses resultados serão "amplamente distribuídos aos proprietários de terras da região, que poderão planejar melhor seus sistemas de gestão de pecuária. Além disso, nossos resultados sobre a saúde das antas serão fundamentais para a concepção e implementação de futuros programas de reintrodução e translocação".
Proteger as antas é também importante porque esses animais são considerados "jardineiros das florestas". Isto pelo seu padrão de comportamento de ingestão de sementes de um local e a dispersão por defecação em outro local. As antas adoram fazer longas caminhadas pela floresta, o que significa que as sementes podem viajar uma longa distância nos estômagos das antas antes de serem depositadas em outro lugar.

Neste sentido, elas atuam como vitais "engenheiras do ecos- sistema", alterando a abundância e a diversidade das espécies de plantas em todo o seu habitat.

Elas ainda reforçam este papel graças ao seu apetite. As antas são animais de grande porte, e, consequentemente necessitam de uma quantidade grande de alimentos para crescerem e se manterem saudáveis.  

Texto original em inglês: http://news.mongabay.com/2015/0107-danglelo-tapir-health.html#ixzz3Qt7OskYt

 

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