O grupo composto por pesquisadores e gestores da saúde do Ministério da Saúde, Fiocruz, secretarias estaduais de saúde de São Paulo e Rio Grande do Sul e Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) participou da “Oficina de Trabalho sobre Modelagem de Dados: Apoiando o Caminho da Coleta de Dados à Análise de Surtos”, oferecida pela Imperial College London entre os dias 23 e 25 de agosto. O workshop foi realizado no Palácio Itaboraí, da Fiocruz, em Petrópolis (RJ). 


“Oficina de Trabalho sobre Modelagem de Dados: Apoiando o Caminho da Coleta de Dados à Análise de Surtos”. Turma reunida no Palácio Itaboraí, Petrópolis (RJ), 23 a 25 de agosto de 2022. Foto: Barbara Souza 

Foram três dias de aulas e exercícios práticos sobre a construção de modelos matemáticos destinados à compreensão da dinâmica das populações envolvidas na transmissão   de doenças infecciosas e sua aplicação no impacto e efetividade da vacinação, entre outros usos. Oito pesquisadores e professores do MRC – Centre for Global Infectious Disease Analysis, da Imperial College London (ICL), conduziram as atividades. O contexto introdutório foi apresentado pela líder de pesquisa do Consórcio de Modelagem de Impacto de vacinas e pesquisadora em modelagem matemática da ICL, Katy Gaythorpe, que também mediou o debate e avaliação crítica sobre um artigo científico com os participantes. Ao final do curso, ela afirmou que “o engajamento de todos foi fantástico e o aprendizado, recíproco”.  

O conteúdo das aulas abrangeu da introdução aos modelos propostos para o estudo das doenças infecciosas ao uso de tecnologias na prática da modelagem de dados para a saúde pública, passando ainda pela importância dos dados genômicos nas análises epidemiológicas, apresentada por Nuno Faria, professor e pesquisador de evolução viral da Faculdade de Medicina da Escola de Saúde Pública da ICL. Durante os três dias de curso, foram apresentados cálculos e métodos para estimativa dos diversos parâmetros que compõem os modelos, entre eles força de infecção e população suscetível, apoiado nos modelos gerados para Febre Amarela, SARS-CoV-2 e Influenza, como exemplos.


Aula com Ilaria Dorigatti, do Imperial College London na “Oficina de Trabalho sobre Modelagem de Dados: Apoiando o Caminho da Coleta de Dados à Análise de Surtos”. Palácio Itaboraí, Petrópolis (RJ), 23 a 25 de agosto de 2022. Foto: Barbara Souza

Também professora da Faculdade de Medicina da ICL, Ilaria Dorigatti disse que existem muitos desafios nesta área e que acredita no esforço conjunto como o melhor caminho para superá-los: “estamos muito interessados em entender melhor o papel das vacinas e como melhorar as políticas de vacinação, assim como em saber mais sobre a relação das mudanças climáticas com a circulação de doenças. Nós não temos todas as respostas, mas sim muitas perguntas. Mas eu tenho certeza de que, com nossa colaboração e conhecimento conjuntos, poderemos avançar muito”.  

No fim do terceiro dia do curso, os participantes se reuniram para discutir desdobramentos práticos a partir do aprendizado da semana. Representante da Coordenação-Geral de Vigilância das Arboviroses, da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, Daniel Garkaukas Ramos provocou reflexão sobre o uso de modelos matemáticos para otimizar a produção e distribuição de insumos e vacinas. “É importante que os modelos que a gente está desenvolvendo pensando no aspecto epidemiológico também sejam capazes de orientar outras ações de controle e vigilância, como orientar a produção e distribuição de vacinas. A gente pode ajudar os laboratórios a organizarem sua produção com base em projeções do cenário epidemiológico. O mesmo vale para os insumos laboratoriais”, afirmou.


Exercícios práticos durante “Oficina de Trabalho sobre Modelagem de Dados: Apoiando o Caminho da Coleta de Dados à Análise de Surtos”. Palácio Itaboraí, Petrópolis (RJ), 23 a 25 de agosto de 2022. Foto: Barbara Souza  

Já o representante da Opas, o estatístico Silvano Oliveira, afirmou que ferramentas como os modelos matemáticos ajudarão a resolver problemas práticos e atuais que têm atrapalhado a gestão das crises sanitárias a nível continental. “No escritório aqui do Brasil, nós temos dificuldades de conseguir informações de outros países. O Brasil é um país transparente, que publica seus dados. Mas, muitos outros não fazem isso, o que se torna um dificultador para gente. Temos dificuldade de conseguir ter o mínimo de informações para tomada de decisão, como por exemplo agora que faremos a distribuição para os países da América de insumos utilizados no combate à monkeypox”, explicou.  

Encaminhamentos após o curso 

O debate realizado na tarde do terceiro e último dia da “Oficina de Trabalho sobre Modelagem de Dados: Apoiando o Caminho da Coleta de Dados à Análise de Surtos” culminou na lista de encaminhamentos para o futuro, cuja intenção é dar continuidade à parceria e realizar ações em prol da saúde pública. Os principais são: 

- Realizar oficina para definição de prioridades de pesquisa e desenvolvimento de modelos preditivos entre as diferentes coordenações do Ministério da Saúde;  

- Manter espaço de comunicação aberto entre a ICL, Fiocruz e outras instituições; 

- Realizar oficinas para construção de modelos complexos, com o objetivo de identificar lacunas de conhecimento, as necessidades de resultados de curto e médio prazo e as oportunidades de fomento, instituições e pessoas necessárias ao desenvolvimento de resposta a essas questões; 

- Realizar seminários mensais entre coordenações do Ministério da Saúde, Fiocruz e outras instituições estratégicas para apresentação de oportunidade e desafios;  

- Fomentar projetos de pesquisas a serem desenvolvidos por alunos de pós-graduação integrantes da proposta de articulação interinstitucional com o ICL; e 

- Fomentar iniciativas de modelagem entre departamentos do MS e integrar instituições, grupos e profissionais que trabalham com essa estratégia. 

A “Oficina de Trabalho sobre Modelagem de Dados: Apoiando o Caminho da Coleta de Dados à Análise de Surtos” foi a segunda atividade da semana, que teve no dia 22 o “Painel Internacional de discussão sobre a contribuição da modelagem de dados para vigilância e políticas públicas em saúde”, na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Para fechar a programação, no dia 26, houve ainda o trabalho de campo com as atividades práticas da vigilância de epizootias de febre amarela e outras arboviroses, no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), em Guapimirim.

A semana foi fruto da interação iniciada em 2018 entre pesquisadores da Plataforma Institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre/Fiocruz, da Coordenação Geral de Vigilância das Arboviroses da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde e do Imperial College London, que desde então busca diálogos em torno, principalmente, da pesquisa e desenvolvimento de modelos de suscetibilidade à Febre Amarela no Brasil.