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24/11/2015

Rompimento da barragem em Mariana traz impactos imediatos para pessoas e ecossistemas

Marcia Chame *


O rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana traz impactos imediatos e conhecidos para pessoas e os ecossistemas envolvidos, mas também impactos de médio e longo prazo desconhecidos, considerando que nesta região o Brasil não experimenta desastres naturais destas proporções, aos quais alguma experiência prévia possa presumir consequências.

A perda de vida, água, alimento e trabalho é imediata.

Por associação é possível antecipar o aumento de doenças virais transmitidas pelo Aedes aegypti, com a necessidade de armazenamento de água pela população; o aumento de doenças de veiculação hídrica pelo uso de água inadequada para consumo, somando-se a isso a falta de condições sanitárias para o transporte de água, como a de boa parte dos caminhões pipa; o manuseio da água no enchimento e uso de reservatórios; doenças mentais decorrentes de amplo espectro de traumas vividos pelas vítimas e suas famílias. Espera-se também o aumento de alergias e doenças pulmonares quando a lama secar e se fizer poeira.

Outros impactos ainda podem ser presumíveis mas ainda não são mensuráveis, dentre eles e não a eles restritos: a contaminação de alimentos via magnificação de elementos tóxicos na cadeia alimentar(como cobre, cobalto, chumbo...), o possível surgimento de zoonoses com o aumento de contato entre pessoas, animais domésticos e silvestres que sobreporão áreas de uso na busca de alimento, abrigo e água nos habitats restritos que se mantiveram de alguma forma a salvo; o tempo necessário e a capacidade de depuração dos elementos despejados no solo e nas águas; o surgimento de novos compostos químicos na dinâmica ecossistêmica, e também como se dará a dinâmica e a composição da sucessão ecológica na área atingida, possivelmente com a invasão de espécies, inclusive exóticas. 

Diversos estudos se fazem necessários como o conhecimento e monitoramento do percentual dos componentes do rejeito vazado na lama e sua capacidade de dispersão e percolação nos diversos tipos de solo, vida média, interação com elementos naturais nos diversos ambientes de depósito (margens de rios, estuário, terra firme, nascentes, mar); acompanhamento da taxa de mortalidade de animais silvestres e domésticos; identificação de oportunidades ecológicas para transmissão de doenças, em especial as zoonoses.

É importante identificar espécies que possam evidenciar capacidade de resistência e resiliência e para isso, o mapeamento da ocorrência das espécies e características ambientais dos refúgios e áreas de escape encontrados pelos animais silvestres se faz necessário.

É conhecido que animais têm a capacidade de sentir abalos e  movimentos sísmicos. No entanto, não se tem qualquer notícia sobre a morte de animais silvestres, exceto as espécies dulcícolas e, do rio Doce, em especial. Parte da área atingida é também de conservação e impactos certamente também se reverberarão sobre as espécies terrestres da região. Além da perda de animais na inundação, os impactos são desconhecidos a médio e longo prazo.

Diversas frentes de apoio e ajuda vem se formando e todas elas são necessárias pelas proporções e amplitude das consequências na região.

A equipe responsável pelo Sistema de Informação em Saúde Silvestre - SISS-Geo, da Fiocruz, se coloca à disposição para difundir na área do impacto e seus arredores e entre os diversos agentes em trabalho, o uso do aplicativo e a disponibilizar, imediatamente e on line, os registros de animais e possíveis agravos por eles manifestados, aos órgãos responsáveis da área ambiental e da saúde, e a colaborar nas análises e ações necessárias.

 

* Marcia Chame é bióloga, pesquisadora titular da Fiocruz, Coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre e do Programa Institucional Biodiversidade e Saúde - Fiocruz.

 

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